ANO 1 - Nº 03 - Dezembro / 2005

 

A família é: um valor relativo ou um valor absoluto?

 

    Grande parte dos conflitos familiares se origina na percepção que a família possui para si mesma, uma medida avaliada em termos absolutos ou relativos.
    A título de definição: uma família que se mede de forma absoluta é uma família que possui um forte senso de valores, uma missão definida, e onde a contribuição de cada um de seus membros está claramente compreendida, aceitando-se por conseqüência seus aspectos positivos e os menos positivos. Por outro lado uma família que se vê de forma relativa tende a ser casuísta e se portar de forma reativa.
     O autor Jay Hughes, parte do pressuposto de que o sucesso de uma família - e sucesso é definido por ele como uma família que consegue chegar à quarta geração - tem de ter um forte senso de espiritualidade, baseada em valores éticos intrínsecos. Partindo desta conceituação, esse tipo de família só pode ser uma família que se vê como absoluta.
    Neste sentido cabe então a pergunta: Como pode a mesma atuar de forma que ela se veja sempre como uma entidade absoluta?
    Primeiramente, aceitar que cada geração tem como obrigação manter os princípios que determinaram a sua própria longevidade e em nenhum momento comprometer os mesmos. Em segundo lugar entender que cada geração tem o dever de contribuir para que seu patrimônio continue a crescer, e este não precisa somente ser medido em termos econômicos, mas também em termos de capital humano.
    As famílias brasileiras tendem a medir seu sucesso usando como parâmetro o seu balanço patrimonial, quando na verdade o que vale é mensurar concomitantemente seu balanço intangível.
    Um artista na família, que expressa em sua arte os valores da família, é tão relevante para a continuidade da mesma quanto um membro que se dedica à sua administração patrimonial. Um administrador patrimonial, que por sua vez usa meios que põem em risco os princípios somente porque no final do processo acredita que houve um aumento de sua capacidade financeira, ignorando as necessidades coletivas, pode ter contribuído para um patrimônio, mas deve ter consciência de que ao romper com as suas tradições gerou um rompimento no elo que mantém a família unida.
    A experiência tem demonstrado que os conflitos entre familiares são, na maioria das vezes, o resultado de conceitos mal aplicados. A quebra de paradigmas se transforma na ruptura e uma vez rompida a sua unidade espiritual, sua autoconcepção do que é certo e errado em termos de valores e missão. O final de sua existência se aproxima, mesmo que essa ruptura proporcione um valor tangível maior que o intangível.
    Num mundo onde se buscam respostas relativas às questões existenciais, a solução está em assegurar a intangibilidade do processo. O futuro é uma verdade absoluta e as famílias não devem se tornar escravas de questões momentâneas.

René Werner